Vamos falar de futebol?! (Mas desta vez sobre homofobia e machismo)

Ontem foi o Dia Internacional das Mulheres, e também meu time de coração estreou na Argentina pela Copa Libertadores da América. Neste mesmo dia o time rival ao meu fez uma ação de marketing em suas camisas para o jogo válido pela Copa do Brasil onde cada número trazia consigo dados sobre a violência contra mulher referente a tais números.

Segue a quarta-feira chuvosa em Belo Horizonte, fico preso no transito por volta de 35 a 40 minutos, meu glorioso time faz um jogo terrível e apenas empata em 1×1, peço a famigerada saideira para digerir o resultado amargo e sigo meu caminho. Esses fatos todos ocorrendo me geram um momento de reflexão sobre como o futebol e as questões de gênero e sexualidade andam em caminhos totalmente contrários, principalmente nas arquibancadas.

BELO HORIZONTE/ MINAS GERAIS / BRASIL  (12.09.2012) Atlético x São Paulo - no Estádio Arena Independência - Campeonato Brasileiro 2012 - foto: Bruno Cantini

Passei a me recordar sobre as longas caminhadas subindo a Rua Pitangui no Horto ou as travessias pela capital mineira para conseguir chegar ao Mineirão e ver, por muitas vezes times pífios, as amizades e as resenhas durante, antes ou até depois do jogo com pessoas que eu provavelmente nunca mais verei seja no campo ou nas ruas da cidade, ou então se transformariam em grandes amigos com um elo significativamente importante: o time. Ecoavam pela minha cabeça os cantos da torcida acompanhados pelas baterias das torcidas organizadas. Lembrei-me do quão frágil é a sexualidade do torcedor, tão frágil que vê a necessidade de, a cada bola chutada pelo goleiro adversário, chama-lo de “bicha”, uma tentativa (creio eu) de reafirmar a sexualidade de seus torcedores e jogadores. Nesses gritos então podemos ver crianças que entoam os mesmos dizeres a plenos pulmões enquanto seus pais admiram maravilhados o quão seus filhos são torcedores, como são apaixonados pelo clube que o pai muitas vezes devotam a vida. Esses filhos por sua vez se vêem maravilhados com a admiração de seus pais tanto por eles quanto pelo time, e repetem tudo que eles dizem de forma alegre, mesmo sem saber o real significado do que dizem.

Ai dentre as várias lembranças dos jogos que presenciei e meio a este “insight” lembro-me das várias falhas (algumas propositais) que a arbitragem cometeu contra meu time, um pequeno espaço para mais uma reafirmação da macheza onde meus companheiros torcedores xingam a arbitragem e suas mães. Se essas pessoas dessem cú como a torcida manda ao longo dos jogos, talvez nem fossem capazes de sentar ao fim de uma temporada. Pior ainda é quando há uma mulher em meio a arbitragem pois ai, segundo a lógica da torcida, ela esta no lugar errado pois ela devia estar “pilotando” um fogão, buscando uma cerveja ou então vendo programa de fofoca na TV.

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A torcida sempre prega que o time é “o time do povo” e realmente se vê todo tipo de gente nas arquibancadas (homens, mulheres, homossexuais, crianças, ricos, pobres, branco, preto, amarelo e etc..) e ultimamente me perguntei quanto essas diversidade é representada seja nas próprias torcidas, nos seus cantos e nos produtos da própria entidade, até porque por um acaso já tentaram comprar grande parte das linhas femininas desse time?! Pois digo, são poucas peças, sem variedade de modelos e muitas vezes sem um carinho do próprio clube pelas mina, engraçado pois até parece que não tem mulher na torcida.

Entra jogo e sai jogo, eu já vi título, goleada, clássico, contratação importante e temporadas a perder de vista nesses meus anos na arquibancada (até o Ronaldinho Gaúcho eu vi vestir a camisa 10) mas uma coisa que nunca perde a graça é dar aquela pequena alfinetada no time rival, até porque se você não for macho o suficiente pra usar nossas cores tem que torcer pras “Maria” porque “elas” tremem e na nossa torcida só entra macho. Dia de clássico então é o dia do meu time”estuprar a bicharada”.

Nas arquibancadas caráter e qualidade são características secundárias, o que importa mesmo é ser macho, e se for mulher não pode chamar Maria, porque Maria é coisa das “bicha”. Nos jogos o que se propaga de verdade são doses cavalares de machismo, de homofobia, mas no dia de ontem a hipocrisia se encarna então quando você posta foto com as mulheres da sua vida (seja mãe, namorada, filha, esposa) usando o manto do meu, do nosso time até porque, isso é só futebol.

Amo meu time, amo a vida de arquibancada mas ela é cruel, ali todos os preconceitos e os próprios conceitos já formados que ficam mascarados para manter 0 bem-estar social são escancarados por todos nós (sim me incluo muitas vezes, principalmente no passado) e onde as crianças recebem doses cavalares e demonstrações claras de homofobia e machismo e onde elas descobrem que o que importa mesmo é a sexualidade.

2017-03-05 21.21.44

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